domingo, 15 de dezembro de 2013

O dia em que o amor morreu



Laura conheceu o Amor aos quatro anos de idade, na escola. Desde então, cuidou dele com todo zelo que lhe foi ensinado. Laura cresceu com Amor e não se afastou dele nem por um dia. Ele sempre estava lá para ela e ela para ele. O Amor de Laura a acompanhou em cada praia, em cada cidadezinha de interior, em cada momento, seja de felicidade ou tristeza. Laura abria mão de qualquer coisa, mas nunca abriu mão do Amor. Ele esteve com ela ao longo desses quinze anos, até hoje de manhã. Essa manhã o Amor de Laura morreu.

O Amor morreu nessa manhã de domingo, após Laura terminar o namoro e colocar todas as suas coisas - que estavam na casa do (ex) namorado - dentro de uma caixa, na sua picape Ford F-75.  Laura saiu em disparada e nem viu. O Amor morreu em plena Rua das Cerejeiras, em pleno verão, quando Laura passou por aquela lombada que ela já conhecia de cor e pela qual já passou um milhão de vezes ao longo do namoro.

Foi ali, no meio da rua, que o Amor morreu. Amor era marrom, de pelúcia, um típico urso felpudo. Tinha sido presente de uma professora que dizia para Laura que o amor é a coisa mais importante da vida. Laura tinha medo do tempo, e sua professora disse também que Amor não envelheceria. Que o amor não envelhece. Desgasta sim, mas sempre dá pra dar um jeito. Se rasgar aqui, costura. Prega daqui, costura dali. Aí Laura batizou, junto com a tal professora, seu ursinho de Amor.

Amor caiu da picape quando Laura passou na lombada e foi atropelado por outro carro. E outro. E outro. O Amor morreu em uma manhã de domingo, sozinho no asfalto, e Laura nem percebeu, estava tão zangada. Daqui alguns dias Laura vai se perguntar onde é que o Amor foi parar. E não vai saber. Vai procurar Amor em todos os cantos, e é provável que vai chorar. Vai ligar pro ex-namorado perguntando se por acaso ele viu o Amor. Não. Ele também não viu o Amor morrer.

Mas um dia, quem sabe, o Amor volte para Laura. Com alguns pontos, remendos e uma boa lavada talvez ele fique inteiro novamente. Se Laura o recuperar, independentemente do estado, ela sabe ressuscitar o Amor. Ela sempre foi muito boa em recuperar e consertá-lo. E mesmo remendado, vai ser o Amor de sempre, com cheirinho de uma vida inteira, de aconchego, e com toda uma bagagem amorosa que só ele tem. Se você por acaso encontrar o Amor por aí, devolva-o à Laura. E se não devolver, adote-o. Viva o Amor. Laura não ficará chateada. Ela só ficaria triste se soubesse que tanta gente passou pelo Amor e não viu quanto amor ele tinha para dar. 

14 comentários:

  1. "Que o amor não envelhece. Desgasta sim, mas sempre dá pra dar um jeito."
    Que delicia de texto! Parabéns!

    Beijos
    Camila Gomes

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  2. Que texto incrível! Amei como você o organizou, fico pensando se eu conseguiria fazer algo assim :/
    E tem razão: única tristeza deve ser a percepção de que tantas pessoas passaram sem se deixar sentir simplesmente... Belo texto. Espero que muitas Lauras por aí voltem a encontrar seus Amores.

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    1. Caramba, aposto que consegue sim! Obrigada, viu? Também espero que as Lauras da vida reencontrem seus Amores. Um beijo!

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  3. Sensacional, Marie! Tão lindo e doce! *__*

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  4. Que saudades que eu tava desses seus contos absurdamente fantásticos e que me deixam completamente sem comentários! Fantástico!
    Abraços!

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    1. Ai, gê!! Que saudade de você! Muito, muito obrigada! Te amo!

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  5. Ou então Laura pode conseguir um novo amor. Achei esse texto maravilhoso, Mariê. Demais mesmo. Por que eu sou tão relapsa e não faço a ronda mais vezes? Mas diz pra Laura, que eu vou ficar de olho e, se encontrar o amor, eu aviso. Bjinhos.

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    1. Paloo, minha rainha do pijama e do óculos escuros! Obrigada, de coração! Pode deixar que eu aviso a Laura. Beijão <3

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  6. Ai, Marie, eu chorei. Mas não foram tipo lágrimas bonitinhas de emoção, foi como um chororô desesperado à la filme com morte de cachorro. Há alguns dias eu perdi o ursinho de pelúcia que era meu Amor desde que eu tinha um ano de idade, e com ele foi uma parte de mim. Em suas palavras encontrei um conforto e um alívio que ninguém mais me deu. E só me resta agradecer, de forma simples e virtual, a essa pessoa que conquistou com seu texto um pedacinho do meu coração. Obrigada. Muito, muito obrigada!

    coelhosdechapeu.blogspot.com.br

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  7. Lindo texto!
    Compartilhei pelo twitter :)

    bjs

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